A criminalização da paquera


O flerte, o elogio, os gestos de carinho e gentileza que aproximam os casais desde que o mundo é mundo não devem ser confundidos com assédio.
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Não estou falando do assédio, moral ou sexual, que existe e merece ser denunciado e punido.
Estou falando do flerte, do elogio, dos gestos de carinho e gentileza, dos olhares e palavras que aproximam os casais desde que o mundo é mundo.
Porque a histeria que iguala uma cantada a um estupro está criando uma sociedade na qual os homens estão ficando com medo de demonstrar qualquer interesse pelo sexo oposto. E, mesmo não havendo interesse, existe a apreensão de que um cumprimento gentil seja interpretado como um gesto opressor e machista. É recomendável nem olhar para as mulheres em ambientes sociais, na rua, no shopping. Na dúvida, melhor evitar.
Não estou exagerando. Há poucos dias um amigo postou em uma rede social:
“Moro em um condomínio fora de São Paulo que não tem transporte público. Temos na saída do condomínio um ponto de carona. Se for mulher, não dou carona de jeito nenhum… Se for homem, ok, ofereço carona, correndo o risco até de ser roubado, mas para mulher nem pensar…”
Este amigo está apenas e simplesmente se adaptando aos novos (e chatíssimos) tempos. Curvando-se a uma agenda supostamente feminista, ditada por uma minoria e amplificada pela mídia, empresas já estabelecem códigos de conduta que proíbem caronas, beijos no rosto e outras formas de interação entre homens e mulheres. Sorrir, estabelecer contato visual, elogiar a maneira de se vestir ou convidar para um chope ou um cinema são atitudes potencialmente arriscadas. Até mesmo dividir um elevador pode ser perigoso.
O curioso é que esse movimento – do qual a expressão mais caricata é a afirmação de que toda relação heterossexual é um estupro – é promovido pelas mesmas pessoas que pregam a tolerância e a diversidade nos valores e comportamentos, a pluralidade de escolhas, a liberdade nos relacionamentos sexuais e afetivos, inclusive na adolescência. Tolerância e diversidade sim, mas só para aqueles que pensam e agem como nós.
É claro que somente uma minoria – de homens e mulheres – leva a sério a patrulha do politicamente correto. A criminalização da paquera é apenas mais um sintoma do abismo que cresce entre a classe falante e o mundo real. Ninguém é obrigado a gostar de ser paquerado, mas muitas mulheres – e homens também – gostam. E vão continuar paquerando e sendo paquerados, para desgosto de muitos.
O que não impede que volta e meia algum “machista” seja escolhido para Cristo no tribunal de Justiça sumária das redes sociais. Basta uma denúncia e logo um exército de lacradores adere ao linchamento virtual, causando constrangimento público imediato. Depois se descobre que não foi bem assim, mas o dano já está feito, e uma reputação destruída. Episódios assim produzem mais homens medrosos e mulheres invisíveis – uns e outros cada vez mais solitários e tristes.
Felizmente ainda existem vozes sensatas, mesmo em um meio dominado pela lacração. Cathérine Deneuve, ícone da beleza feminina (em uma época na qual a beleza não ofendia), já se manifestou contra os excessos do feminismo politicamente correto, criticando o puritanismo e o “ódio aos homens” como motores desse discurso: “Este impulso de enviar homens ao abatedouro, ao invés de ajudar mulheres a serem mais independentes, ajuda os inimigos da liberdade sexual”, afirmou. E ela não estava falando, evidentemente, de assediadores que não respeitam um não, mas de homens comuns.
A escritora Cathérine Millet, defensora e praticante da liberdade sexual das mulheres, também fez um alerta contra os exageros e o denuncismo que transformam a paquera em crime: “Surgiu uma espécie de feminismo puritano, um feminismo bastante agressivo em relação aos homens”, declarou em uma entrevista. “No início dos anos 2000, falávamos de um outro tipo de feminismo, que não fazia guerra aos homens, que não transformava os homens em inimigos. O que é muito lógico, porque, se você vive sua sexualidade intensamente, quer manter a relação com os homens.”
Na paquera, como em tantos outros assuntos, é preciso colocar em prática o que disse Rosa Luxemburgo: “A liberdade é quase sempre, exclusivamente, a liberdade de quem pensa diferente de nós.” Ou não?
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